A CERTEZA NAS INCERTEZAS DE MAIO

abr 30, 2021   //   por admin   //   Notícias  //  Nenhum comentário

São passados quatro meses do “ano novo”, 2021, e nos sentimos como se estivéssemos no velho ano de 2020, com todas as tribulações iniciadas em fevereiro daquele ano, que vieram agravar a nossa situação, que já não era fácil. Maio chegou entre tantas incertezas, impondo em nossos ombros o medo que insiste em nos assombrar. No penúltimo dia de abril, 29, o Brasil chegou a 400 mil pessoas falecidas, resultante da infecção pela covid 19.

Milhares de falecidos, mas milhões afetados por sequelas da infecção, pelo subemprego, desemprego, pela carestia, fome e miséria. São dores por todos os lados, uma noite escura que se espraia sem limites, fazendo-nos prisioneiros de nós mesmos e uns dos outros. Estamos num “purgatório”, para não dizer outra coisa, sem data para terminar, com forças arrefecidas, pois não se vislumbra o “fim do túnel” e muito menos a luz.

A fé esmaece, está a gotejar a caridade e a esperança, que por isso vão minguando. Assim, como se não bastassem as doenças do corpo, ficamos enfermos na alma e no espírito, estamos como que sonâmbulos, catatônicos, andando a esmo, apavorados diante do medo que ocorra uma terceira onda infecciosa do “bichinho”. Lágrimas silenciosas, às vezes escondidas, rolam a “torto e a direito”, sem “porto seguro”, sem amparo sólido, que arrefeça a solidão.

No Brasil, nestes últimos quatorze meses, poucos não choraram, não perderam o sono, não tiveram pesadelos, não se horrorizaram, não tiveram medo da “barriga roncar de fome”, não se perguntaram como será o amanhã, diante da atrocidade do hoje, que não viram a morte rondar o quintal da família, da vizinhança, dos amigos ou dos colegas de trabalho. Há um cansaço, uma desilusão caminhando e lançando raízes no coração das pessoas e nas estruturas da sociedade.

Há um cinismo avassalador que toma conta de boa parte das “pessoas públicas”, de toda natureza, que como “cuidadores – pastores” do povo, se esquecem que “todos são filhos e filhas de Deus”, e pautam as suas ações seletivamente, sem olhar para a globalidade dos cidadãos que lhes são confiados, pela missão que operam ou deviam operar na sociedade, sendo para isto, eleitos ou não. Alguns parecem viver e ou agir sob uma redoma, surdos diante do grito de socorro que clama aos céus, ecoado de todos os cantos e recantos deste Brasil.

Temos sinais promissores: os estudos científicos para descobrir medicamentos contra a covid 19 e a produção e distribuição de vacinas, estas já em uso; a caridade e a filantropia das pessoas, igrejas e organizações da sociedade civil, que socorrem os que são privados dos meios de subsistência; a ação profissional de pessoas que se situam na linha de frente no atendimento aos infectados, aos falecidos e nos processos de higienização; descoberta de novo meios de organização da sociedade civil, reinventando formas de trabalho; a redescoberta do que é essencial na vida.

Bom seria uma unificação dos programas de assistência social, dos governos, para criar uma “ajuda emergencial”, um projeto de “renda mínima”, para assistir pessoas e famílias desempregadas ou subempregadas. Os recursos para este fundo poderiam ser os já existentes e previstos nos planejamentos governamentais, um imposto sobre as grandes fortunas, redução salarial e de benefícios de pessoas do alto escalão do executivo, legislativo e judiciário, nas três esferas, e redução de gastos públicos com propaganda e marketing.

A certeza de maio é que não estamos sozinhos, Deus está conosco; não estamos vencidos, mas “pelejando”; acuados, mas não derrotados. Canta a canção “Segura na mão de Deus e vai”. Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitado caminha conosco, como esteve com os discípulos de Emaús. Que o Divino Espírito Santo abra a nossa vida para compreendermos e vivermos a Sagrada Escritura, luz para os nossos passos. Procuremos o alimento da Eucaristia, pão dos sofredores. Procuremos o conforto da amizade e sejamos solidários. Assim, não nos faltará o terno e materno amor de Nossa Senhora, ao longo deste maio.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

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